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Fórum de Moda do Paraná – dia 3
O último dia do evento contou com a participação do Mário Queiroz e sua incrível palestra O Herói desmascarado – a imagem do homem na moda, assunto do seu livro.
Mário Queiroz é formado em jornalismo, mas sempre atuou na moda. Trabalhou na indústria antes de inaugurar sua própria marca, em 1995. Também é professor na Anhembi-Morumbi, possui mestrado em comunicação e semiótica sobre a imagem do homem nos editoriais de moda (tema do livro) e pretende fazer seu doutorado estudando o homem brasileiro.
Queiroz pergunta por que o homem tem sempre que usar a máscara – aquela máscara da dureza, da sobriedadade. É convenção social que a moda não é assunto de homem e eles se forçam a não saber nada sobre ela. Quantos chegam às lojas com o discurso “me mostre o que devo usar” , ou deixam essa decisão para as mulheres de sua vida? Nas palavras do próprio Mário, isso é uma anulação muito grande, deixar alguém escolher como você se mostra aos outros.
Uma prova disso é que não existe revista de moda masculina no Brasil. O assunto até surge, mas sempre compartilhando espaço com fotos de mulheres sensuais ou novidades automobilísticas, essas coisas másculas que servem para justificam o interesse pela publicação. Por isso Mário buscou nos editoriais da revista inglesa Arena Homme Plus a referência para esse trabalho.
Na palestra, Mário monta uma linha do tempo com figuras de destaque. Começa com os dandies ingleses e franceses do século XIX, passa pelo charme latino de Rodolfo Valentino e chega ao ponto crítico da Guerra. É ela que endurece o cavalheiro que, nessa situação extrema, não pode se preocupar com as minúcias da aparência. Hollywood tenta relaxar com a imagem de Fred Astaire, mas o homem que não sorri, atormentado pelas lembranças da guerra, é retratado por Clark Gable e Humphrey Bogart. Até então os galãs eram sempre maduros, nunca jovens – a ruptura surge com James Dean, rebelde de cara no seu vestir: a camiseta, roupa íntima originalmente usada por baixo das camisas, é agora exposta. A seguir, o homem forte volta na imagem dos atletas, mas David Bowie e Mick Jagger sugerem a possibilidades mais amplas. A década de 80 convive com punks, surfistas, yupies e lança a imagem do homem “blindado” com Rambo e Conan, referências iniciais da cultura ao corpo e às academias. Mais recentemente brilha David Beckham que, enquanto jogador de futebol (portanto, macho), dá o aval para os homens comuns se tornarem vaidosos mantendo sua masculinidade.
Quem ficou com vontade de saber mais tem que comprar o livro. Já está na minha lista de leitura!
Fórum de Moda do Paraná – dia 2
A palestrante desse segundo dia de evento foi a Káthia Castilho, com o tema Design da aparência contemporânea e a imagem de Moda.
Káthia tem mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica, dá aulas no mestrado da Anhembi-Morumbi, é pesquisadora do ETHOS e fundadora do Colóquio de Moda. Também é diretora da editora Estação das Letras e assina diversos livros sobre moda.
A palestra foi bastante teórica, mesmo porque o assunto requer uma abordagem assim.
Tudo começa com a obsessão pela imagem, característica das sociedades ocidentais. Há o fascínio pela figura humana, pelo corpo, que atua como suporte de inserção de valores. O corpo é a mídia de si mesmo e a roupa faz parte disso, é uma segunda pele. Por trás da moda há sempre um panorama sociocultural. O vestuário possui uma linguagem, a roupa pode determinar a performance, a gestualidade e o comportamento das pessoas – inseridas naquele local, naquele momento.
Na sociedade atual, há o desejo de ver e ser visto, e aí entra o virtual como nova dimensão de experiência. Porém, a velocidade e a ausência de limites geográficos levaram à perda da tridimensionalidade e das sensações em nome das possibilidades da experimentação. Isso aproxima cada vez mais o mundo real do mundo possível, e acaba legitimando o imaginário como realidade de quem o pensa. Por isso são criadas as expectativas irreais, os ideais de beleza inatingíveis. Nos acostumamos com essas imagens que não correpondem à realidade.
O desafio do design da aparência é relacionar-se com essa dinâmica do nosso tempo e corresponder aos discursos físicos atuais. Hoje, a representação do mundo e do sujeito é papel do designer. É ele que vai permitir ao indivíduo incorporar seus personagens e reconstruir seu universo de significações.
Fórum de Moda do Paraná – dia 1
Está acontecendo em Curitiba o XVI Fórum de Moda do Paraná. Hoje foi o primeiro dia, com palestra da Tatjana Ceratti: A importância da mídia para o negócio Moda.
Tatjana Ceratti foi modelo e hoje apresenta o programa Mundo Fashion na Band. Muito simpática e bastante elogiada por outros convidados. Ainda não conhecia o trabalho dela, e o formato de seu programa me chamou atenção: ele mostra a moda e seus bastidores do ponto de vista de diversos profissionais, sem emitir uma opinião “enlatada”, e aborda questões diferentes, inclusive sobre o mercado da moda.
A palestra em si foi curta; o que rendeu mesmo foi a discussão posterior, com a participação dos ouvintes e do Paulo do Comunidade Moda. Falou-se sobre o papel da mídia na valorização da moda nacional (e como o olhar dos jornalistas é geralmente negativo), sobre as dificuldades competitivas que as marcas nacionais encontram no exterior, e sobre o monopólio da moda no país – a cumplicidade entre um grupo de profissionais que acaba fechando as portas para novos profissionais. Mais além, discutimos os preconceitos – tanto de fora quanto de dentro do mundo da moda.
Tudo isso se aplica também à moda sustentável. Mídia é informação - ela tem o poder tornar os conceitos de sustentabilidade mais acessíveis e quebrar paradigmas. Enquanto o jornalismo de moda não se interessar pelo ético e ecológico, dificilmente as pessoas poderão formar espontaneamente essa opinião.
E o tão falado preconceito de quem não conhece moda e só a enxerga como algo supérfluo? Se a importância social e ambiental da moda fosse mais difundida esse pensamento mudaria. Mas para isso é preciso que os próprios designers e demais envolvidos no mercado repensem seus conceitos, porque o preconceito contra a moda sustentável vem de dentro.


