Artigos na categoria ‘materiais e processos’
Lã: ética ou não?
Nenhuma fibra sintética consegue alcançar a qualidade da lã natural. Mas, como acontece com todo produto de origem animal, há discussões sobre até que ponto é correto aproveitar esse atributo dos bichos.
Os vegans são contra o uso de lã baseando-se no argumento da crueldade animal – dizem que a tosquia é agressiva e provoca ferimentos, que em regiões de clima inadequado muitos animais desidratam no calor ou morrem de frio após a tosa, que as ovelhas são manipuladas para produzirem mais lã e de qualidade diferente da natural. Mas pensando assim, a alfacinha do almoço pode ter vindo de uma daquelas fazendas que colocam lâmpadas noturnas sobre cada pé, para forçar a fotossíntese e o desenvolvimento acelerado da pobre planta. Polêmicas à parte, os dois argumentos (extremos) anteriores se referem a maus produtores, não a maus produtos. Por isso é importante conhecer a origem do que se compra.
É possível fazer um manejo adequado dos rebanhos e retirar a lã sem agredir os animais. Aliás, o bem-estar da criação é uma das exigências da pecuária orgânica, que já está acontecendo em muitos lugares. Uma iniciativa famosa é a da marca holandesa Flocks. Cada peça de roupa e decoração é feita com a lã de uma única ovelha e acompanha uma etiqueta com todas as informações do animal – raça, nacionalidade, foto… Já dá para sentir que esse bichinho foi bem tratado, não é?
Produto e etiqueta da Flocks – para saber de onde veio.
Do ponto de vista ambiental, criações animais tradicionais são sempre problemáticas. Mas a criação orgânica consegue reduzir o impacto, pois se preocupa com a manutenção do solo, não utiliza antibióticos e pesticidas agressivos, e racionaliza o consumo de água e energia (assim como a agricultura orgânica). Tudo volta (sempre!) àquela questão da origem.
A incrível propriedade da lã de nos manter quentinhos também dispensa o uso dos aquecedores de ambiente, acusados de contribuir para o aquecimento global. Outro ponto positivo é que, como o animal não é morto para a retirada do material, ele se torna uma fonte renovável. E além de tudo, roupas de lã animal duram muuuito mais do que as de lã acrílica, a mais comum por aqui.
Mas recentemente o PETA reavivou a discussão com a campanha Have a heart, dont buy wool (tenha coração, não compre lã), buscando o boicote da lã australiana alegando que “os animais se tornam fábricas vivas de lã e têm negado tudo o que é natural e importante para eles”. Os fazendeiros locais reagiram dizendo que quando se paga $155 numa ovelha, dificilmente ela será abandonada sem cuidados, que eles são os principais interessados no bem estar do animal, entre outras coisas.
E esse debate sobre o quão ética a lã pode ser está longe de acabar. Na falta de um consenso, informe-se para poder se posicionar: se se sentir bem, use; se não, não use.
S.café – tecido feito… de café!
Eu amo café. Tenho uma Moka para não precisar usar filtros de papel, mas como não tenho jardim para adubar, fico sem ter o que fazer com o pó usado. Se as minhas poucas colheradas diárias já são um problema de descarte, imagina os quilos de pó que sobram do Starbucks?
Pensando nesse problema, a empresa taiwanesa SINGTEX® desenvolveu o S.Café, tecido que aproveita os resíduos de pó de café em seus fios. Não consegui encontrar informações sobre o processo (patenteado, que levou 3 anos para ser desenvolvido), mas a empresa garante que não usa substâncias químicas agressivas e nem requer altas temperaturas, economizando energia e emitindo menos carbono.
Os criadores afirmam que uma xícara média de café gera resíduo suficiente para a confecção de duas camisetas. Levando em conta que eles coletam gratuitamente 400kg mensais de pó usado do Starbucks, é um bom negócio.
Além de todos os benefícios na produção, o tecido apresenta proteção UV, pode ser lavado somente em água (sem detergentes) e seca rapidamente, o que contribui para a redução de odores naturais. Já é utilizado na confecção de roupas esportivas, como mostra o vídeo:
Já pensou se, além de tudo, tivesse cheirinho de café? Hum, que delícia…
Desperdício Zero
Já vimos que a avaliação do impacto de um produto deve levar em conta todo seu ciclo de vida. Não basta se preocupar com o material, é preciso saber como ele está sendo utilizado. Por isso, a nova preocupação dos eco estilistas é o Desperdício Zero.
Mark Liu trabalha o conceito em suas coleções.
O conceito pode ser adotado por diversos tipos de indústria. No caso da moda, o objetivo é projetar roupas inteligentes com moldes planejados, que evitem aqueles retalhos sem utilidade. O tecido é mais valorizado: os cortes são precisos e as inevitáveis sobras são reaproveitadas para criar pequenos forros e detalhes decorativos, como babados.
A marca Uluru também
Esse novo pensamento requer uma dedicação maior por parte do designer e do modelista, e pode ser um desafio para quem não teve esse tipo de orientação durante sua profissionalização. Mas é só pensar nos benefícios para todas as partes: contribui para a natureza, ao não encher aterros com retalhos desse material que não é reciclado, e resulta numa significativa economia de material para a indústria.



