Palavra-chave: ‘algodão’
Meu primeiro orgânico
Mesmo com todo esse interesse por eco fashion, nunca tive nenhuma peça de algodão orgânico. Porque no Brasil esses produtos ainda são muito raros, caros e feios (desculpe generalizar, mas são). Porém, sempre tive vontade de experimentar um algodão “limpinho”… E na semana passada, consegui matar essa curiosidade!

Aproveitei a queima da Camiseteria Ekosfera para adquirir a um preço aceitável uma polo básica. A tag é da Natural Fashion, com certificação do IBD. Ela é verde suave, uma das tonalidades do algodão cor natural desenvolvido pela Embrapa – e a tal matéria-prima foi produzida em pequenas propriedades da Paraíba.
Na prática, como se espera, não tem diferença do algodão convencional. O frescor a mais é psicológico, daquela sensação de consciência limpa, sabe? Eu gostei. E vou plantar minha etiqueta de papel semente assim que arranjar um vasinho (difícil ser verde num apartamento no Centro – rá!).
Algodão orgânico – qual a diferença?
Para muitas pessoas moda sustentável se resume a uma coisa: algodão orgânico. E é compreensível, visto que o algodão é a matéria-prima têxtil mais utilizada e a maior parte das iniciativas ecológicas envolve esse material. Mas você sabe qual a diferença que certificação orgânica faz?
Basicamente, o algodão orgânico não pode ser transgênico, deve ser cultivado sem agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, e proporcionar condições de trabalho saudáveis para trabalhadores dignamente remunerados. Quer mais detalhes? Continue lendo.

O algodão convencional
A cultura convencional de algodão é uma das mais agressivas ao ambiente: ela ocupa 3% da área cultivável com uma monocultura intensiva e consome 25% de toda a quantidade de inseticidas usada na agricultura no mundo. E esses produtos contaminam o solo, a água e as pessoas – muitos trabalhadores rurais não têm a proteção adequada para lidar com esse tipo de material, o que pode levar a doenças e até mesmo morte por intoxicação.
Além disso, há muitas lavouras que utilizam sementes geneticamente modificadas. Elas prometem uma planta com mais fibras e maior resistência a pragas, mas oferecem um grande risco à diversidade das espécies e são apenas um paliativo, dada a assustadora probabilidade de os insetos criarem resistência aos químicos.
O algodão orgânico
O algodão orgânico propõe corrigir essas ameaças ao ambiente e à sociedade. Ele pretende ser um produto limpo, não só por não contaminar o ambiente, mas também por não utilizar mão de obra explorada. E isso se percebe em todo o processo de cultivo dele:
Primeiramente, as áreas de cultivo passam pela rotação de culturas. Isso quer dizer que o plantio do algodão naquele lugar é alternado com outro vegetal no ano seguinte, o que é extremamente importante para preservar a saúde do solo, pois cada espécie vegetal tem necessidades e benefícios diferentes. Mantendo a saúde da terra por esse meio natural, já se descarta a necessidade de fertilizantes sintéticos. Além disso, o solo saudável – cheio de matéria orgânica – consegue reter muito mais água, o que diminui a necessidade de irrigações, racionalizando o uso de água no processo.
As sementes utilizadas não são geneticamente modificadas ou tratadas com pesticidas. Aliás, agrotóxicos são completamente eliminados no processo. As ervas indesejadas são retiradas manualmente e os ataques de insetos são controlados ou pela introdução de uma espécie predatória benéfica, ou pelo cultivo de outras plantas que “tiram a atenção” da lavoura de algodão.
A certificação orgânica do produto também garante que todos os trabalhadores envolvidos no processo tiveram condições de trabalho adequadas, jornadas controladas, e pagamento justo pelo serviço realizado. Tudo isso porque o produto orgânico não é só ecológico, e sim sustentável.
Eficiência real
O cultivo orgânico do algodão é um procedimento sustentável, mas não é um fator único ao se atribuir o caráter ecológico a uma roupa. O transporte, a manufatura e o uso dessa roupa podem descompensar os benefícios da matéria-prima.
O ideal é que o algodão seja cultivado localmente. A importação ou mesmo transporte entre longas distâncias é responsável por altas emissões de carbono, o que anula parte do benefício ambiental conseguido no cultivo.
Outro problema é o tigimento do tecido, geralmente feito com corantes sintéticos, envolvendo substâncias químicas contaminantes e alto gasto de água. Hoje já estão se desenvolvendo corantes naturais eficientes e processos menos nocivos, mas estes ainda são pouco utilizados.
E, finalmente, o impacto do uso: quantas vezes essa roupa será lavada e com quais produtos; qual a energia gasta no lavar e passar. Se o usuário não fizer boas escolhas na manutenção de suas roupas, o impacto ambiental novamente pesa contrário aos benefícios dos orgânicos.
Vale a pena?
Vale sim, como todos os orgânicos. A certificação é bastante rígida e garante benefícios ambientais e sociais. Talvez aida seja difícil encontrar produtos atraentes desse material ou com um preço razoável, mas a diferença entre o orgânico e o convencional é tão grande que, com o tempo, o orgânico será cada vez mais comum.