Palavra-chave: ‘menos e melhor’
Como será a indústria da moda em 2025?
Um relatório sacudiu o mundo da moda sustentável na última semana: o Fashion Futures, uma parceria entre o Forum of the Future e a Levi Strauss & Co., estimula as empresas a se unirem e encararem o desafio do desenvolvimento sustentável pensando num futuro mais positivo. Pois sim, é possível ter sucesso numa economia que respeita as pessoas e o planeta.
“Para a indústria da moda ser economicamente sustentável, ela precisa ser também socialmente e ambientalmente sustentável.”
John Anderson, Presidente da Levi Strauss & Co.
O projeto visa orientar a trilhonária indústria da moda para a possível realidade de 2025 – mudanças climáticas, escassez de recursos, avanços tecnológicos, e outros desafios que já tomam forma hoje, e estarão plenamente desenvolvidos daqui a 15 anos.
Veja abaixo as simulações dos quatro possíveis cenários de 2025:
Slow is Beautiful
Slow is Beautiful from Alex Johnson on Vimeo.
Um mundo ideal, com colaboração política e comercial. Slow fashion em alta, empresas competindo por suas credenciais sustentáveis, influência marcante das mudanças climáticas. As pessoas têm menos roupas e de mais qualidade, muitas vezes de segunda mão (compradas e vendidas online!). Também são populares as “roupas inteligentes”, que monitoram a saúde do usuário. O Japão é o especialista em reaproveitamento de roupas do mundo todo.
Comunity Couture
Community Couture from Alex Johnson on Vimeo.
Comunidades autossuficientes lutam contra o impacto do aquecimento global e a escassez de recursos. Apenas os ricos podem ter roupas novas e as fábricas que ainda utilizam matéria-prima virgem são protegidas por grupos armados. A população aluga roupas como em bibliotecas, ou fazem suas próprias peças recicladas. Nada é jogado fora.
Techno-chic
Techno-Chic from Alex Johnson on Vimeo.
Essa realidade próspera é resultado do alto investimento em tecnologia e mudança precoce para uma economia de baixas emissões de carbono. As pessoas podem provar roupas virtualmente com os scanners 3D. Módulos de vestimenta são fabricados na China e personalizados nas lojas para cada comprador. A última moda é a roupa “camaleão”, resultado de pesquisas militares, que muda de cor e formato para acompanhar a tendência do momento. Tudo é projetado para ser biodegradável ou reutilizado.
Patchwork Planet
Patchwork Planet from Alex Johnson on Vimeo.
Nessa realidade, o mundo está dividido em blocos competitivos, com mudanças velozes na moda inspiradas pela cultura e religião. Roupas ocidentais são proibidas no Oriente Médio. A escassez de recursos levou à inovação: as roupas de celulose bacteriana crescem como se fossem vivas, e as peças comestíveis são tendência na Europa. As roupas são projetadas com aberturas, zíperes e amarrações que permitem muitos looks com uma só peça e podem ser atualizadas conforme a tendência local.
Qual cenário nós queremos para o futuro?
Elegância é atemporal
Já falamos que as tendências têm seu papel na moda. Que é natural querer pertencer ao tempo de hoje, e expressar isso no vestir. Mas uma coisa nunca sai de moda: a elegância.
“A moda passa, o estilo permanece.”
Coco Chanel
Elegância é graça, delicadeza, educação, bom gosto. É acima de tudo comportamento, mas – assim como a nossa personalidade – transparece no que se veste. E do mesm modo que a atitude elegante é sempre apreciada, as roupas que carregam essa informação jamais ficarão datadas.
Por isso, investir em modelos atemporais – em peças de boa qualidade! – garante um guarda-roupa coeso e duradouro, que pode ser facilmente atualizado combinado com peças da estação. É a construção inteligente do nosso acervo de moda.
Uma boa dica para identificar essas peças atemporais é pensar num ícone de elegância e destacar os elementos associados a essa imagem. Por exemplo, o colar de pérolas – o longo de Chanel, ou o curtinho de Jackie O. – nunca vai fazer feio. Só o jeito de usar muda, para permitir a atualização e a personalização.
No futuro, mais posts virão, dedicados a cada uma dessas mulheres inspiradoras. Quem você gostaria de ver aqui? Já escrevemos sobre:
Slow Fashion
Quantas vezes você disse, ou ouviu alguém dizer que “não tem tempo pra isso”? Estamos correndo o tempo todo, tentando conciliar trabalho, estudos, casa, família, amigos… Sem perceber que o segredo para ter mais tempo pode ser simplesmente desacelerar. Parece contraditório, mas é só uma questão de priorizar e pensar. É isso que propõe o movimento slow, que começou na comida e já chegou à moda.
Slow fashion é, de fato, oposto ao Fast Fashion. É aprender a comprar consciente e aproveitar o que merece, pelo tempo que merece.
Preguicinha curtindo a maciez. ;)
Fast Fashion
Alguns se referem ao Fast Fashion como democratização do estilo. Não é. No máximo, é democratização das tendências e, por isso, massificação do estilo. É a moda na sua forma mais descartável: barata, de baixa qualidade, e visualmente datada.
E por que é barato? Porque a qualidade do material é baixa. Porque as peças são produzidas em grande quantidade. Porque são costuradas na China por mulheres que recebem poucos centavos por muitas horas de trabalho. Concordo que as roupas “sustentáveis” de hoje são meio superfaturadas, mas mesmo quando elas se popularizarem no futuro, continuarão sendo mais caras. Porque não tem como sair com esse preço fazendo as coisas do jeito certo!
Slow fashion
O Slow Fashion se opõe a tudo isso. É a qualidade sobre a quantidade, a consciência sobre a alienação. É pensar a moda como um todo, levando em conta nossa individualidade, o ciclo de vida das roupas, e o impacto das nossas escolhas. Mas e na prática, no que consiste o Slow Fashion? Olha só:
Atemporalidade. A crítica maior é ao ritmo alucinado da moda, “resetada” a cada estação. As tendências têm seu lado positivo e a atualização é uma necessidade, mas elegância é atemporal. As pérolas nunca saíram dos pescoços elegantes, mas as ombreiras foram rechaçadas por duas décadas até “voltarem” recentemente – e quem duvida que os Balmains de 2009 serão repudiados na próxima década? Opte por modelos que você não vai ter vergonha de usar no ano que vem.
Qualidade. Requisito indispensável ao pensar na durabilidade de uma peça, e se aplica a tudo: material, modelagem, acabamento… Afinal, quem consegue usar por muito tempo uma peça torta, descosturada ou cheia de bolinhas? Mas é claro que temos que fazer nossa parte fazendo uma boa manutenção!
Uso de materiais naturais e orgânicos. É a consciência do impacto ambiental e social que poderia ser evitado ao optar por um material de boa origem. Matéria-prima natural é renovável, dura mais, veste melhor, deixa a pele respirar. E a certificação orgânica garante que os processos utilizados foram limpos e os trabalhadores, respeitados.
Relações de trabalho justas. Parte do princípio que todos os envolvidos na produção de uma roupa devem ser valorizados. O estilista criador tem todos os seus méritos – assim como o agricultor que plantou o algodão e a costureira que montou a peça. Logo, os 3 merecem condições de trabalho e salários dignos. É o lado da sustentabilidade que vai além do ambiental. Por isso defende-se também a produção local: nada de importar meterial e mão-de-obra! Vamos contribuir para o desenvolvimento da nossa própria região.
Valorização do artesanal. Além de remeter diretamente à valorização do trabalhador, o artesanal tem o fator de exclusividade: foi feito com calma e carinho, só para você – o oposto das milhares de peças idênticas que saem a cada hora das máquinas das confecções. É a oportunidade de fugir da massificação, e comprar uma peça com carga emocional e significado muito maior.
E os preços?
Como eu disse antes, a moda ética jamais conseguirá competir em preço com quem lucra em cima de quantidades massivas, redução de qualidade e trabalhadores mal pagos. O que vai contar é a consciência e a coerência de cada um: não faz sentido querer comprar com certificação orgânica e de fair trade e esquecer que o volume de consumo também faz toda a diferença.
Partindo desse princípio, tudo fica lógico. Quando paramos de comprar muito e o tempo todo, sobra dinheiro para investir numa peça de boa qualidade.
E essa lógica serve para a vida inteira. Se consumíssemos menos, as empresas produziriam menos, e poderíamos todos trabalhar menos. Imagina só, reduzir 2 horinhas de trabalho diárias e poder almoçar com calma em casa, curtir um passeio de bicicleta, um tempo de qualidade com a família… Trabalhando menos o salário reduz? Talvez, mas não é problema quando se consome menos. Parece ideal, né? Então por que insistimos em fazer o caminho inverso? :(
